quarta-feira, 1 de março de 2017

Hoje não vou estar calado...

 Para Manuela Sabino



Hoje não vou estar calado.
Não me interessa
que abras a gaveta da memória
e me olhes com o olhar de apagar fogueiras.

É inútil!
É como se os passos que caminhaste
percorressem mais o dia
do que a vida.

É inútil!
São anos que a terra te deu
e com ela construíste
a casa da conveniência
o que faz que tenhas a idade das borboletas.

Hoje não vou estar calado.
Não me interessa que ignores
o sol que entra pelo teu dia…
Vou recordá-lo mesmo que me olhes
com o olhar de apagar fogueiras.
Podes tentar,
mas é inútil!

O meu sentir é fogo que não se extingue!

JFV

11/1/2017






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Duros golpes

 
 
 
 
 
Os duros golpes
não marcam data
nem se importam em que lado da vida caminhamos.
Em viés trespassam-nos a carne,
marcam terror nos dias...

com começo,
sem fim...

Regressam e enfeitam-nos o corpo
em dias curvos
para que o passadiço onde nos refugiamos
nos faça cair no abismo.

(O descaminho à nossa frente
é o desvio que nos perfura a mente)

JFV

18/01/2017

Livros que choram




Livros que choram...
Que importa que portas fechem
se a escuridão é do tamanho dos infelizes
que nunca viram a luz que dá a poesia,
nem fizeram amor com (um) romance?...

Montes e montes de livros...
Tristes, indignados...
Presos no lodo,
nos limos
e na ignorância dos charcos,
tentam sobreviver desfolhando os olhos
lágrima a lágrima.
Os livros são habitados...
têm dentro ideias,
ideais
e páginas que esbracejam para não os deixar morrer
porque não se envergonham da sua existência
nem se importam que os vejam chorar.

 
JFV
 

28/01/2017

Poeta do olhar





Para a amiga e fotógrafa Lina Madeira
Foto_Lina Madeira


Há poetas que captam a vida com o olhar.
Uma flor em liberdade sai-lhe dos olhos,
uma onda que canta na rebentação
apura-lhe os sentidos.

O dia,
a noite,
o homem que não se recusa a olhar o mundo
nem que esteja preso na ilusão da tragédia,
prolonga a esperança que o olhar tem
sem fingir sentimentos ou rotinas.

O poeta do olhar
habita no meio das estrelas,
divide o céu ao meio,
sopra as nuvens,
vive para além do infinito,
ama o que vê e o que sente
e regista na máquina e no coração.

As fotografias falam no silêncio e nada ocultam,
são como crianças que abrem a imaginação
com o mesmo entusiasmo com que o poeta do olhar
reinventa a vida!

JFV
28/01/2017

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Venho de ver o mar deserto…








Venho de ver o mar deserto…

Trago as ondas nas mãos

onde as deixo sossegar

e neste silêncio que procuram

a ilusão da liberdade

já me escorre pelos dedos.


(Mas inunda-me o coração.)



JFV

29/11/2016

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

HOJE NÃO...



  
Tired of Being Angry- Bernie Rosage Jr.



Hoje não me revejo naquilo que sou...
Talvez amanhã,
ou depois...
A esperança é um bocejo
que a pouco e pouco adormece
e me arranca do sonho com os cascos
da besta que não escondo de mim.
Hoje não...
Talvez amanhã,
ou depois
me reinvente e saiba dizer
a que hora exacta
deverei mudar as ferraduras,
cavalgue de esperança em riste
e mate todos os sonhos mal aproveitados.
Hoje não...
Talvez amanhã,
ou depois...
Hoje tudo me cansa!


JFV
16/11/2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Chuva




(Vista do meu quarto em Olhão)


Cai, cai...
Ébria de aventura
a chuva vive no céu
mas é na terra
que é feliz!


(Cai e acaricia o sol apagado!)

JFV

A noite falha...




A noite falha.
O escuro grita ao sono intermédio
e assusta o rebanho incontável.
Prolonga-se a noite
e fios de memórias
saltam sobre as cercas dos olhos.

A noite falha
e a manhã chegará
como um espectro de velas.

JFV
28/10/2016

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Outono tem pudor da água





 Autumn Energy, original painting by Nancy Eckels


Olhos chegados às entranhas do frio
empunham bandeiras que não morrem nem gelam.

Hasteadas as lágrimas no mastro dos pesadelos
não desbotam o arco íris
nem quando a cor e a luz
faz com que a primavera seja uma adivinha.

Inventam-se novos olhos
que trepam árvores e dão sentido à terra
mesmo que o remorso do vento
ensine as folhas a bordar um novo manto
sem que as lágrimas se tornem fogueiras.

( O Outono tem pudor da água.)

28/09/2016

JFV

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Quero tanto ser importante...




 Otto Dix

(-Quero tanto ser importante-)

Andar com dois mestrados pela trela.
Falar mandarim enquanto mastigo pizza prateada
e italiano com chau min de ouro na boca.
Representar Beckett, Tennessee Williams, Juan Mayorga
numa cama de corcel
onde possa esperar que Godot chame o desejo
sem parecer um animal noturno com cio.
Ler a Bíblia, Vedas, Alcorão, Tanakh e outros mais
para quando o pecado urgir
a absolvição seja instantânea
e não entre no céu por orifícios adversos.
Vestir etiquetas de marca e não me constipar.
Morar em Peak Road, Fifth Avenue, Knightsbridge
sem me sentir o indigente sobre quem caiu o tecto de Deus.
Aprender a colocar vírgulas e reticências no final das ruas
e usar a semântica como passadeiras para peões.

(Não pretendo chocar com a inteligência
nem ser atropelado por ideias ou raciocínios).

Descer aos confins do inferno
e assar a raiz do pensamento nas labaredas de Dante
de forma que as punições sejam uma “Divina Comédia”.
Cumprimentar o trolha, o camponês, o feirante.
Passar pelos seus pardieiros sem solidão nas janelas.
Os filhos a crescerem à minha passagem
põem-me um açaime para não morder as próprias canelas.

(A importância que tenho foi arrancada do chão
pelo acariciar dos vendavais que a vida persegue)


JFV

10/02/2016

sábado, 30 de janeiro de 2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Não passa este tempo de atenções apressadas





 Francis Bacon. Three Studies for a Crucifixion

Não passa este tempo de atenções apressadas
e de enfeites a escorrerem por corações podados à pressa.
Há quem se esforce,
quem se torça
para que a esmola não entorne e manche o longo manto
que se desenrola aos pés da virgem da época.
E esta azáfama frita a boa vontade
perfumada de óleo rançoso.
O amor, e outros sentimentos mais ou menos indigestos,
servem-se em fartura (sempre por debaixo da consciência).
E é nesse tempo que não passa que engordamos a piedade.


JFV

Dezembro-2015

sábado, 2 de janeiro de 2016

ÁGUA FORTE



 Pintura:
Oswaldo Guayasamín
Manos de lágrimas

Lágrimas com cheiro a bafio
em rostos desfraldados
não são belas,
escorrem por tempos roubados.
Acumulam-se durante o ano,
nada secretas.
Tornam o mundo num enxoval
de vida solteira.
São olhos de naftalina que sofrem.

Que infelizes
os que nunca choram
mas têm a persegui-los
essas gotas que estupram os olhos.
não gritam,
não cantam,
mas dão brado,
recebem ovações
só porque existem e estão secos.
(Todos os dias são dias de corações mortos
e pensamentos de pedra.)

Lágrimas incendiárias são obscenas,
os orgasmos são de cinza
e espalham-se enquanto urdem prazer.
Chorem!, quando estivermos de costas,
a olhar o fogo de artifício que explode do avesso,
e temos faúlhas nos olhos
--porque se amam uns aos outros?

Gosto de me sentir água.
Isso sou eu que me embrulho no enxoval
que é a vida
e amo
e repito as lágrimas.
( A sua abundância não me enferruja os olhos.)


1/1/2016

JFV

sábado, 31 de outubro de 2015

uivo

As ruas onde me movo 
são suspeitas,
os lobos uivam.

Na sombra, 

devoram as consciências
e os refúgios sangram, já.

(A noite e o escuro passeiam por cérebros
simulados.)

Enquanto os lobos esquecem a madrugada
encolho o medo,

liberto o sangue,
levito sobre a alcateia!

JFV

30/10/2015


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

desadorna-se o mundo



 Banco de refugiados - Banksy

 
Para ti, Ana Vassalo

Há duas realidades:
A de uns- os felizes-
e a dos outros- os despidos-
Os felizes têm vidas gourmet,
cafés e restaurantes assentes em estacas zero
e não pensam na fuga.
Evitam-na enquanto houver economistas
e a maneira excel  como veem a humanidade.
Têm as mãos ocupadas, a mente barricada,
os corações parados e os olhos enxutos.

Para eles há o mar sem fundo, fronteiras demarcadas e religiões derretidas.
As ondas, a liberdade, as crenças e a leveza do olhar são enxofre que os intoxica.

Zaatari, Boynuyogun, Calais, Lesbos e Chios
são nomes de casa de passe
com meninas-mulheres a taparem o rosto com cinto de ligas.
(Infectas as mentes de fraque e cartola)

Os despidos têm o mar que não cumpre rotas,
fronteiras que bloqueiam destinos,
orações ditas por lábios sem gula
e não sufocam o sonho
(mesmo que a morte esteja ali à frente).
Esquecem o nu a que chamam sobrevivência
e tremem,
não de frio mas da incerteza de terem futuro.

A força que ainda os abraça
é do tamanho da inutilidade humana.
E enquanto não descansam,
desadorna-se o mundo.


JFV

segunda-feira, 20 de abril de 2015

De partida...





  Fotos tiradas em Olhão-19-04-2015

Fingir que se é casa não importa.
É a velocidade que vive entre nós e o asfalto
que faz com que não se oculte a chave da viagem.


JFV

terça-feira, 14 de abril de 2015

SILÊNCIO DE UM BEIJO



 "in silence"_ chiharu shiota



O meu silêncio não é acompanhado por melopeia,
dança na boca viúva da palavra.
Sem som ando a fingir que vivo no pensamento
e assim mudo,
baptizo todas as prisões com o perfume que o cérebro liberta.


Preso numa cela onde perecer ou sacudir dores
(num salto de milhares de ilusões)
é-me tão enfadonho como mergulhar no poema
onde me espelho.


A esperança de mim tão desatenta
eleva a voz apenas na imaginação. 

Até o sussurro vindo das pedras
é mais audível só de olhar para elas.


Hoje, confesso que preferia
adormecer ao som de uma canção de acalentar
e que as ilusões
não se calassem,
mas o meu silêncio é encantado,
precisa do beijo das palavras para despertar
sem sujar os lábios.


JFV
14/04/2015

segunda-feira, 30 de março de 2015

A dor não respeita as almas limpas

 


 he hears the world by Agnes Cecile

Dedicado a Ana Vassalo

A dor não respeita as almas limpas, vagueia...
Vigia de bom grado
os enfraquecidos.
Assume a grande festa
do berço à urna.
É a metamorfose
da liberdade da alma
no cárcere da vida.

A dor só se respeita a si própria,
assume o comando,
desenha o nosso percurso,
invade-nos,
enclausura-se no corpo
e assoma pelos olhos
desdenhando
da alegria que passa ao longe.


JFV

quarta-feira, 4 de março de 2015

BEM ME QUER MAL





BEM ME QUER MAL

(A TODAS AS MULHERES VITIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA)

Poisei os olhos no amor e na felicidade
quando o bater do coração me pareceu que alongava a vida.
Apareceste... que medo.
Medo de sentir a implacável garra do amor,
transformar a solidão em algemas de ilusões.
Medo que as estrelas que sempre vi ao longe
caiam com leveza sobre a minha cabeça.
Medo que o corpo levite
até onde a sombra dos sentidos adormecem.
Medo que brotem fervores ao chegar da tempestade
e a aceitação do prazer faça cantar os olhos.
Medo de acreditar que já não sou desabitada
e em mim more outrem e se funda.
Um medo que o vento não leva,
o tempo não esquece porque o sempre é hoje
e indivisíveis somos intemporais.
O amor veio...
A felicidade adquiriu a forma
de palavras concebidas sem pecado,
construindo ermidas de sonhos onde o medo se perdeu.
Amar a dois corpos virados a sul por onde entra o sol
sem queimar o macio da esperança
prolongou o mistério dos murmúrios
e do êxtase que atingimos ao soltar das nuvens.
As noites de suor tornaram-se leves,
povoadas de casulos a darem à luz desejos de seda.
Soube de amor e sexo e do abrir o universo em mim.

Soube, não sei mais...

O fechar dos punhos que rompeu a harmonia
está debaixo da tua pele e faz sangrar o que hoje é a realidade:
A discórdia de um destino a que não me resignei.
Voltou o medo, outro medo...
A sonhada felicidade arde-me por dentro.
A dureza do tempo enganoso e implacável acende a noite mais adiante,
para além de uma cama, para além das promessas.
O acreditar no “para sempre” está cheio de nós e de atitudes de barro.
O amor emperrou, o amanhã não será alheio à violência,
O chão não será o meu caminho
nem as algemas voarão sobre a desilusão.
Tornei-me na barricada que sustém o sangue e as lágrimas,
que escorrem nas mãos da mentira e do engano.
O feminino levado ao tapete pela fragilidade que povoa os esfarrapados de mente
não morreu.
Enfeita o que resta quando se parte para o obscuro,
segue o rasto dos passos que ainda deixam marca de renovação,
procura novos acessos para sair da encruzilhada,
ensina à solidão que da vida não se tem piedade.

Mais medo...
O medo de reencontrar algures a indefinição do que é estar inteira.
O medo de pôr termo à submissão
Mas o medo tem término...
E num gritar de boca já sem medo,
acreditar que há outros dias para renascer.
Viver sem ele é gostar da condição do ser mulher ,
decepá-lo e ir até onde principia a zanga a que se tem direito
para que se possa margear livremente o amor.

JFV

03/03/2015