terça-feira, 11 de julho de 2017

INQUIETUDE


 
 
 
 
A vontade alheia e mendiga
é incapaz de alimentar
um faminto da criação.

A gula é movediça
quando a fome do querer fazer
é um sonho barricado no estômago.

A inquietude
do mendigo digere a ilusão
e come a inércia
que o vagar provoca.

JFV

05/07/2017

quarta-feira, 1 de março de 2017

Hoje não vou estar calado...

 Para Manuela Sabino



Hoje não vou estar calado.
Não me interessa
que abras a gaveta da memória
e me olhes com o olhar de apagar fogueiras.

É inútil!
É como se os passos que caminhaste
percorressem mais o dia
do que a vida.

É inútil!
São anos que a terra te deu
e com ela construíste
a casa da conveniência
o que faz que tenhas a idade das borboletas.

Hoje não vou estar calado.
Não me interessa que ignores
o sol que entra pelo teu dia…
Vou recordá-lo mesmo que me olhes
com o olhar de apagar fogueiras.
Podes tentar,
mas é inútil!

O meu sentir é fogo que não se extingue!

JFV

11/1/2017






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Duros golpes

 
 
 
 
 
Os duros golpes
não marcam data
nem se importam em que lado da vida caminhamos.
Em viés trespassam-nos a carne,
marcam terror nos dias...

com começo,
sem fim...

Regressam e enfeitam-nos o corpo
em dias curvos
para que o passadiço onde nos refugiamos
nos faça cair no abismo.

(O descaminho à nossa frente
é o desvio que nos perfura a mente)

JFV

18/01/2017

Livros que choram




Livros que choram...
Que importa que portas fechem
se a escuridão é do tamanho dos infelizes
que nunca viram a luz que dá a poesia,
nem fizeram amor com (um) romance?...

Montes e montes de livros...
Tristes, indignados...
Presos no lodo,
nos limos
e na ignorância dos charcos,
tentam sobreviver desfolhando os olhos
lágrima a lágrima.
Os livros são habitados...
têm dentro ideias,
ideais
e páginas que esbracejam para não os deixar morrer
porque não se envergonham da sua existência
nem se importam que os vejam chorar.

 
JFV
 

28/01/2017

Poeta do olhar





Para a amiga e fotógrafa Lina Madeira
Foto_Lina Madeira


Há poetas que captam a vida com o olhar.
Uma flor em liberdade sai-lhe dos olhos,
uma onda que canta na rebentação
apura-lhe os sentidos.

O dia,
a noite,
o homem que não se recusa a olhar o mundo
nem que esteja preso na ilusão da tragédia,
prolonga a esperança que o olhar tem
sem fingir sentimentos ou rotinas.

O poeta do olhar
habita no meio das estrelas,
divide o céu ao meio,
sopra as nuvens,
vive para além do infinito,
ama o que vê e o que sente
e regista na máquina e no coração.

As fotografias falam no silêncio e nada ocultam,
são como crianças que abrem a imaginação
com o mesmo entusiasmo com que o poeta do olhar
reinventa a vida!

JFV
28/01/2017