quarta-feira, 4 de março de 2015

BEM ME QUER MAL





BEM ME QUER MAL

(A TODAS AS MULHERES VITIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA)

Poisei os olhos no amor e na felicidade
quando o bater do coração me pareceu que alongava a vida.
Apareceste... que medo.
Medo de sentir a implacável garra do amor,
transformar a solidão em algemas de ilusões.
Medo que as estrelas que sempre vi ao longe
caiam com leveza sobre a minha cabeça.
Medo que o corpo levite
até onde a sombra dos sentidos adormecem.
Medo que brotem fervores ao chegar da tempestade
e a aceitação do prazer faça cantar os olhos.
Medo de acreditar que já não sou desabitada
e em mim more outrem e se funda.
Um medo que o vento não leva,
o tempo não esquece porque o sempre é hoje
e indivisíveis somos intemporais.
O amor veio...
A felicidade adquiriu a forma
de palavras concebidas sem pecado,
construindo ermidas de sonhos onde o medo se perdeu.
Amar a dois corpos virados a sul por onde entra o sol
sem queimar o macio da esperança
prolongou o mistério dos murmúrios
e do êxtase que atingimos ao soltar das nuvens.
As noites de suor tornaram-se leves,
povoadas de casulos a darem à luz desejos de seda.
Soube de amor e sexo e do abrir o universo em mim.

Soube, não sei mais...

O fechar dos punhos que rompeu a harmonia
está debaixo da tua pele e faz sangrar o que hoje é a realidade:
A discórdia de um destino a que não me resignei.
Voltou o medo, outro medo...
A sonhada felicidade arde-me por dentro.
A dureza do tempo enganoso e implacável acende a noite mais adiante,
para além de uma cama, para além das promessas.
O acreditar no “para sempre” está cheio de nós e de atitudes de barro.
O amor emperrou, o amanhã não será alheio à violência,
O chão não será o meu caminho
nem as algemas voarão sobre a desilusão.
Tornei-me na barricada que sustém o sangue e as lágrimas,
que escorrem nas mãos da mentira e do engano.
O feminino levado ao tapete pela fragilidade que povoa os esfarrapados de mente
não morreu.
Enfeita o que resta quando se parte para o obscuro,
segue o rasto dos passos que ainda deixam marca de renovação,
procura novos acessos para sair da encruzilhada,
ensina à solidão que da vida não se tem piedade.

Mais medo...
O medo de reencontrar algures a indefinição do que é estar inteira.
O medo de pôr termo à submissão
Mas o medo tem término...
E num gritar de boca já sem medo,
acreditar que há outros dias para renascer.
Viver sem ele é gostar da condição do ser mulher ,
decepá-lo e ir até onde principia a zanga a que se tem direito
para que se possa margear livremente o amor.

JFV

03/03/2015