sábado, 9 de março de 2013

LUSCO-FUSCO

 dali-CrepuscularOldMan

O dia leva-me a sombras que quase já não o são
de tão envergonhadas pela noite que se aproxima.
Não gosto do lusco-fusco,
nem da sonolência que provoca.
O dia é tímido perante a noite,
escapa-se pelas bermas do meu sono
e entra pelos lençóis do pensamento onde me deito.
Não o arrumo há dias,
está amarrotado pelas constantes viragens dos sentidos.
Não há meio de o conseguir passar a ferro,
nem sei se o pretendo deitar numa cama
onde entram noites sem nome próprio.
Já tentei dar nome às noites,
são mais de mil e uma,
demais para o meu cérebro breu.
Xerazade conta-me histórias
mas tocam chocalhos na minha mente de quarto minguante
e só recordo o quanto os deuses são injustos
por me fazerem perder a visibilidade das rugas
que os lençóis deveriam ter quando se agita a minha insónia
e me transformam num vaivém das coisas irreais.
Perco o discernimento de quando é tarde ou cedo.
Reinvento de como sentir o dia
sem me submeter ao caminho que o luar me estende.
Preciso de ver sombras sem sonolência,
Preciso que o lusco-fusco perca a timidez
e me devolva o ferro de engomar,
os dias e os sentidos.
Reparo: fez-se noite cerrada!
Preciso de sobreviver...onde está o interruptor?

JFV