quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Quando chegar a casa ainda estarás lá?

Quando chegar a casa ainda estarás lá?
Num 5º andar com vista para o mar.
Perto do principio do mar.
Ainda haverá à porta o teu lugar de estacionamento.
Ainda haverá a escada de pedra, suja da caliça das paredes, subida por nós sem darmos conta de quantos degraus tem, tal a sofreguidão de chegarmos ao quarto.
É uma casa nova já a necessitar de obras, assim como o nosso amor rejuvenesce, a casa erguer-se-á com o contacto do nosso desejo.
Ainda haverá a mesinha de cabeceira, o candeeiro cambaleante desligando-se a uns pés inquietos.
Ainda haverá beatas no cinzeiro ao lado de um fio de ouro e de um relógio dos chineses, sem pilhas. Não marca as horas porque as horas as utilizamos sem contar… amadamente!
As almofadas beje e laranja atiradas ao chão conjuntamente com os cobertores numa mistura cromática.
(A casa ainda é fria em Março).
Ainda haverá calças, camisolas, sapatos, roupa interior, deixadas não se sabe onde. (Felizmente o quarto é pequeno e os esconderijos poucos).
As palavras de amor, mesmo as mais grosseiras estão nos nossos ouvidos, soam a uma viagem começada. Não sabemos como e porque começou…
Dissemos que ficaríamos para sempre, não dissemos quando o sempre chegará.
Duas, três semanas?
Um ano?
As nossas rugas terão o mesmo significado?
O nosso corpo terá a mesma importância?
A tua beleza decerto continuará intacta!
No tempo que não sabemos quanto, mereces ouvir palavras de amor… na ausência.
Deixa lá!
Quando chegar, só, ao 5º andar, tenho a nossa história. Parte da nossa história.
Entrarei, abraço-me… sei que estiveste aqui!
Ainda haverá a porta por onde sairei à procura da primeira cerveja. Até à terceira pergunto-me quando te terei de novo em casa, no quarto, de vires até mim.
De esperar por ti?
Haverá sempre a casa das recordações, na mesinha de cabeceira uma fotografia imaginária, tua, a sorrir, com a mão esquerda na face a desafiar-me para te acompanhar ao outro lado da moldura.
Levaste o fio de ouro, ficou o relógio dos chineses já com pilhas, diminuindo o tempo.
À oitava cerveja, já estou do outro lado da moldura acompanhando-te, respondendo aos apelos da solidão
Deixei de beber!
Agora espero que o telemóvel toque, anunciando que não estou só nem necessito de tropeçar em latas de cerveja vazias nem olhar para umas escadas onde a caliça se amontoa para dizer:
Há momentos felizes!
Ou não?

JFV