segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sentado no bar…

Sentado no bar…
À frente tenho um copo
Cheio de impressões digitais
De pessoas sem palavras nos dedos.
Refugiam-se, qual ermitas,
No recanto das recordações.
Danço com eles canções
Que cantam vida ingerida.

Em mesas afastadas
Vislumbram-se esgares
Dos muitos sentidos pêsames
Que a existência lhes foi dando.
Tantos copos tresmalhados
Desvendando o mistério do último trago.

Sentado no bar...
Ouço canções de maldizer,
Felizes por me construírem o caixão
E me bordarem a mortalha
Com pontos crucificados a néon.

Um piano cujas teclas, libertas,
Circulam entre os clientes.
Alternam notas
Que se recusam a ficarem detidas
Soprando sons em liberdade.
As mágoas, sim
Estão em cativeiro
E olham através dos olhos de um Barman
Impotente ao momento da vontade
Que tinha em aceder ao pedido
De um cocktail de rejeição.

Sentado no bar...
O som do piano entra-me no copo
(Qual assassino com vitima à vista
continua impune depois de me envenenar)
Algemo-lhe as teclas
Embrenho-me no nevoeiro do cigarro
E dou mais um trago.
O coração empresto-o ao pianista
Para acelerar tudo o que a música chora.

Escuto-o...
Numa suprema demência
As notas passam
Entre os poros e o horizonte.
Semicerro as pálpebras
E olho em direcção à porta
Que nunca me deixa chegar
À verdade da razão.

Levanto-me do bar…
E dou independência à alma.
Saio…
Afasto com as mãos o som do piano
Reparo que a minha cara foge da loucura
E trémulo guardo os restantes segredos
Que os muitos copos vazios me contaram.
No fim tudo se dissipa num chamamento:
-Táxi!
-É para?

(Como se chama a vida onde vivo?)

JFV

21/02/2012