terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Carrossel




Carrossel by Justine Ivu




A memória entrou em greve. O futuro agradecer-me-á por isso. Com excepções pontuais (poucas).
Num qualquer lar de idade indefinida, ou numa casa que na altura me parecerá estranha, terei decerto um momento de lucidez antes de me cerrarem as pálpebras e depositarem flores várias sobre o peito. Escolham flores brancas, quero dormir o sono eterno com a sensação que estou a adubar a morte de regador na mão. Delas brotarão um liquido que transferi dos olhos durante décadas, fazendo com que as flores continuem viçosas como as excepções ao esquecimento.
Só é pena não acreditar que possa semear mais memórias nem limpar o pó à fotografia de família. Essa irá amarelecendo, esquecida entre a jarra vazia com água fétida (as flores foram comigo) e um qualquer manual de como sobreviver em caso de apatia.
Ah, não esquecer de telefonar a cancelar a assinatura do jornal. Não quero que encontrem uma factura por pagar ao lado do manual, a apatia tem efeitos duradoiros e retroactivos, o que levaria uma eternidade a darem por ela.
Também não pretendo ser coleccionável numa qualquer caderneta obituário, bastou-me ser cromo em vida.
Andei diariamente no carrossel, domesticando miniaturas de pessoas sem nenhum divertimento.
Não se esqueçam de margear o vosso quintal, controlem o crescimento do que semearam. Numa dessas caminhadas colham uma flor, com ela limparei o pó à fotografia dos amigos à qual pertencem.
O vidro límpido, a moldura resplandecente, os corpos sem pose. Cada um uma pétala ombreando ao lado de um CD da Nina Simone e de um caderno de apontamentos onde escrevi a minha ultima vontade: Domestiquem as miniaturas mas não deixem de se divertir ao andar no carrossel.
Recordem que a memória mesmo em greve não sofre de amnésia.



JFV
14/07/2006