terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CATAVENTO

 


CATAVENTO by Alberto Aravena


Abri a porta de casa e saí acompanhado pela corrente de ar que se levantou. A janela do quarto estava aberta. Deixei que fosse comigo, a minha única companhia, com quem partilho palavras e me devolve em aragem as emoções. Saímos com destino nenhum, levados pela inoperância do momento. Parámos no primeiro café que encontrámos, bebi uma bica. Paga a conta subimos a rua, lado a lado, como dois amantes estranhos ao momento de amar. Soprou ligeiramente, acalmando o crescendo de saudade que se me aninhava no coração. Ardia-me (no peito? no cérebro?) um fim de semana
completo de abraços, de sussurros, de felicidade a prazo, também de muita dor porque foi um fim de semana de becos sem saída. Sabia, tinha a certeza que no fim existia o muro, o que se constrói de sonhos, o que se espera que tenha uma porta, um postigo, uma fenda, qualquer abertura por onde se possa sair e libertar o desejo da carência. Tanta falta faz uma picareta de vontade que derrube os muitos muros que nos impomos, mas não, o muro já existia antes. indestrutível, intransponível, capaz de suportar até a fúria da corrente de ar que tenho como companhia.Tudo indicava para que lado sopraria a tormenta que chegaria uns dias depois. Na altura não ouvi, aliada à certeza de que um muro aparece sempre quando chega a tempestade, não há para onde fugir ou esconder. Minto! Pode-se sempre pedir à nossa amiga corrente de ar que nos entre dentro e nos faça sobreviver, até porque as paixões não se alimentam de excesso de ar, sim da falta dele.
Continuámos a subir a rua não voltando a falar do fim de semana, de muros, amor ou paixão, nada que se intrometesse na aragem que nos enlaçava como dois bons companheiros de silêncio onde as palavras significariam o acordar da importância. Não me (nos) interessava despertar.
No outro lado da rua reparei num polícia que multava um transeunte, não entendia de que falavam, gesticulavam e dessa mímica percebi que devia ter a ver com alguma infracção sentimental.
Ainda tentei debater o que tinha presenciado com a corrente de ar mas recebi uma brisa como a dizer-me que as ilusões se pagam caro. Tão caro como a esperança que se auto-instala. Culpa de um. Culpa do que não se sabe o que se sente ou do que se sabe e não se quer sentir.
Todos os que se apaixonam deveriam pagar multa. Regulamentar a proibição do amor, evitaria a ilusão e posteriormente o auto-flagelo emocional.
Nada me pertence mais que a solidão, nem mesmo a minha amiga tem nesse momento força de sopro para me fazer esquecer o quanto é importante sentir compaixão de mim mesmo. Nada mais errado, sei isso quando me conspurco de culpa, de rebelião, de arrependimento. No exacto instante do lamento a cegueira atrofia-me, excedo-me e a razão toma contornos de burrice. Porque em momentos de insensatez não se perdoa o sofrimento da não retribuição. Deveria ter sido o que não fui: cerebral!
Continuemos a nossa caminhada:
Depois do episódio com o policia, a corrente de ar acalmou, permitindo que conseguisse ouvir o meu próprio silêncio. Ainda tentei dialogar, soprar, utilizei um leque improvisado com uma folha A4, abanei-a com um livro que trazia na mochila, pedi a um grupo de jovens estudantes que passavam que a fizesse reagir bramindo as batinas ao seu redor formando um quase furacão, a uma velhota de bengala que a esgrimisse à sua volta…nada resultou, mobilidade e sossego absoluto.
Com o amuo dela surgiu o sol,um bafo de humidade e calor que me entorpeceu de vez. Deixei de falar do fim de semana na tentativa de a fazer reagir, de tentar que soprasse. Gritei o seu nome, gritei ainda mais alto o que me ia na alma, esperneei, esperneei…
Finalmente tomou posição: Cansada de tanto lamento deixou de ser a amiga corrente de ar e soprou forte, tornando-se num vendaval.
Rodopiei qual catavento.
Foi a forma que encontrou para me mostrar que aquele não era eu. Não lhe bastava simplesmente ter-me dito? Os amigos por vezes sabem mesmo ser cruéis. Não entendem que a paixão dói mesmo?... Paixão?...Na verdade os amigos são cruéis porque são lúcidos.
De tanto rodopiar fiquei atónito. Virado de novo em direcção a casa, palmilhei os metros que me separavam dela e entrei. Enquanto fechava a porta ouvi:
-Não me deixas entrar?
Afinal a minha amiga voltou comigo. Entrou, fechei a porta, abracei-a e disse:
-Queres que deixe a janela aberta?
- É melhor, sei que vais precisar de mim por uns tempos.


JFV